por Émylle AzevedoCantando em cima de um palco no meio de barracas e pessoas, o cantor de rua Francisco Alencar, 38, se apresenta aos sábados pela manhã no bairro da Liberdade. Com roupas coloridas, bandanas na cabeça e um violão na mão, faz com que a encenação de play-back fique o mais real possível. Desde que veio para a capital, esse foi o meio que encontrou para ganhar dinheiro em uma cidade grande, onde o emprego está cada vez mais difícil.
Casado e pai de três filhos Alencar garante que aqui há uma liberdade maior, pois onde vivia a qualidade de vida era inferior a de Salvador e as opções de trabalho, escassas. “Vim para cá com o intuito de trabalho, de dar uma vida melhor aos meus filhos, sou de Alagoinhas e a vida na cidade pequena é muito pior do que aqui”, disse.Alencar mora atualmente no bairro de Periperi e nas apresentações gosta de fazer play-back de Bel Marques, do Chiclete com Banana, o seu preferido. “Desde que morava em Alagoinhas as pessoas me diziam que parecia muito com ele, comecei a encarar a brincadeira como uma forma de ganhar dinheiro, e deu certo. As pessoas aqui em Salvador gostam mais da imitação que faço do Bel e dizem que se não fosse tão magro seria a cópia fiel do meu ídolo”, ressaltou.
Morando há 12 anos na Lapinha e trabalhando na loja de roupas Revivas, a vendedora Júlia Bastos, 25, diz nunca ter visto nada igual e se diverte com Alencar aos sábados, quando vai trabalhar. “É muito engraçado a sua forma de representação, ele é demais, gente fina, carinhoso e muito carismático. Tem tudo para dar certo”, ressaltou.
Há dois anos Alencar se apresenta na proximidade do banco Bradesco da Liberdade. Já fez muitas amizades e se considera um homem sábio pela forma que encontrou para ganhar dinheiro e pela coragem de enfrentar qualquer tipo de discriminação. “Alguns dizem que sou maluco, pela forma louca de me apresentar. Me visto bem colorido para chamar atenção e gosto de ser assim. Curto a vida bem humorado e consigo despertar nas pessoas o que hoje em dia é muito difícil, a forma carinhosa de retribuir a um sorriso. Faço amizade fácil pela minha forma despojada de ser e prezo essa amizade como a última coisa da vida”, declarou.
A dona de casa Amélia Coutos, 43, há vinte anos mora na Avenida Peixe e sempre que vai a Liberdade aos fins de semana se depara com o cantor que sempre é cordial com as pessoas do local. “Hoje em dia é difícil ter alguém que brinque com as pessoas nas ruas com a vida dura que leva, debaixo desse sol quente e com roupas coloridas e calorentas não há quem agüente”, disse.
Desde cedo Alencar trabalhava na rua. Aos 12 anos de idade já ajudava a mãe a sustentar a família de cinco irmãos. “Quando meu pai morreu eu tinha 6 anos de idade, era o filho do meio. O mais velho casou cedo e foi morar com a família da mulher e o segundo foi morto pela polícia quando roubava em um mercadinho. Os mais novos hoje já estão crescidos e ajudam no que podem dentro de casa”, ressaltou.
Para o jornaleiro Adilson Cavalcante, 26, é interessante alguém que se utiliza de um meio saudável para sustentar a família com alegria e tranqüilidade naquilo que faz. “Várias pessoas se aproximam e dão incentivos ao ídolo da Liberdade, até pedem autógrafos”, disse Cavalcante, que mora e trabalha no bairro do Curuzu.
O vendedor ambulante Caio Silva, 21, diz ser esse o topo da criatividade brasileira, pois em um país onde o desemprego é grande e a diversidade cultural também, há meios que não seja a bandidagem para a sobrevivência. “Muitas vezes tenho vergonha de ver meus amigos passar por mim e eu ali vendendo na rua debaixo de sol e chuva para chegar em casa. Às vezes não consigo tirar o dinheiro do dia, mas, quando penso em minha mãe, deixo de besteira e vou com toda a coragem do mundo. Esse cara aí é doido pela coragem de se apresentar desse jeito, mas o que importa é que a família dele deve sentir orgulho de ter uma pessoa assim na família”, disse.
Alencar segue a vida com apresentações aos sábados e desperta a curiosidade dos baianos e dos poucos turistas que passam pelo local, por causa do Grupo Ilê Aiyê, do Curuzu. Ele canta e dança em um pequeno palco de madeira e se intitula como o “Bel Marques da Liberdade”.
(dezembro de 2004)
Arquivado em: PERFIS