Quem vê a entrada da Rua do Curuzu, transversal da Lima e Silva, a principal Avenida da Liberdade, percebe logo que se trata de um bairro muito populoso. Localizado em uma região praticamente cercada por um comércio varejista, esse bairro, que é habitado, em maioria, por uma população de baixa renda, tem seus encantos e desencantos. A área de saúde, por exemplo, ainda sofre certo descaso por parte das autoridades competentes e a prova disso é a atual situação da Unidade de Emergência do Curuzu. A presença de moradores carentes sentados na calçada demonstra pouca perspectiva de vida. Ainda assim, eles carregam no rosto uma esperança, um sorriso, a fé numa mudança de vida. Mais para frente encontra-se moradores que procuram sobreviver do comércio informal e que lutam por uma melhoria nas questões sócio-econômicas. A visita a algum dos vários pontos comerciais, como farmácia, salão de beleza e um mercadinho renderam opiniões, sugestões e até reclamações dos moradores e também proprietários desses estabelecimentos.
Esses proprietários destacaram algumas questões importantes relacionadas ao posto, como o total desrespeito com os moradores. José dos Santos e Silva, mais conhecido como Seu Zé, morador há mais de 50 anos no bairro e dono do mercadinho “Carro Cheio”, explicou: “Essa rua já foi pior. Já passamos por problemas de várias categorias, como os relacionados à infra-estrutura: falta de saneamento básico, a rua não era asfaltada e, quando chovia era um caos, crianças doentes o tempo todo e o posto de saúde daqui não dispunha na época da metade dos serviços que se tem hoje”.
Um outro problema que pôde ser identificado pela dona da farmácia, B.C., em relação ao mesmo posto de saúde, foi as receitas médicas. Ela afirma ser um desrespeito com os moradores: “Os carimbos dos médicos desse posto quase que a gente não enxerga e geralmente os medicamentos que passam, quando não tem no próprio posto, são remédios de difícil acesso, os da tarja preta são um exemplo deles”, afirma.
Ao aproximar-se do final de linha do Curuzu, logo identifica a Unidade de Emergência que não revela, a princípio, tamanha precariedade. Tendo como especialidades de atendimento as áreas de pediatria e clínica geral, o posto de saúde foi inaugurado em setembro de 1994 e é administrado pelas Secretarias de Saúde do Estado da Bahia (SESAB) e da Secretaria Municipal (SMU). Entretanto, a mesma sofre sérios problemas administrativos e de ordem hospitalar. Por funcionar durante 24h, necessita de recursos em várias áreas, para que esteja capacitado e qualificado para o bom atendimento.
Um dos poucos pacientes que aguardavam atendimento de emergência no local, a estudante M. R., 17 anos, julgou o atendimento muito devagar: “Nós chegamos aqui e ficamos horas esperando a boa vontade deles de nos atender, além de ter enfermeiros (as) que não são profissionais e que muitas vezes chegam a ser grosseiros com as pessoas”, desabafou. A estudante ainda chegou a dizer que se ela fosse a gerente do posto, modificaria o quadro desses profissionais, substituindo-os por mais capacitados e educados. Enquanto isso, a funcionária da limpeza da Unidade, Maria Celestino, discordando da paciente, afirmou que ninguém sai de lá sem ser atendido, medicado: “Aqui não falta medicamentos e todos são atendidos”.
Já, para a dona de casa, Marilene da Silva, a falta de
material hospitalar do posto é o que mais lhe incomoda: “Aqui os materiais hospitalares mais necessários andam em falta e isso pra mim é um absurdo. Tem vezes que falta gases para curativos e até álcool e éter, aí a gente tem que ficar esperando eles providenciarem. A situação mais freqüente é quando chega um acidentado aqui e eles simplesmente mandam para o Hospital Ernesto Simões, no bairro do Pau Miúdo. Lá é outra miséria”, lamenta a dona de casa com certa revolta.
Diante da porta principal do estabelecimento, corredores estreitos preenchidos com portas e cestos de lixo abertos, traduziam a mais pura desordem. As escadarias à esquerda levaram ao funcionário da limpeza José dos Santos, que fez outro tipo de reclamação: “Não vou mais limpar nada aqui. Agora só quando pagarem meu salário”, afirmou contrariado.
A coordenadora do posto que deu as informações desejadas, não quis se identificar, mas colaborou ao responder as perguntas revelando a princípio que são atendidos diariamente cerca de 100-150 pessoas, dentre elas, crianças, adultos e idosos a partir de 60 anos de idade. Destacou as causas principais dos atendimentos de emergência, que são em sua maioria, acidentes domésticos causados por agressões às mulheres, ferimentos provenientes de facadas, na maioria, por brigas, crimes sem explicação, como foi o caso mais recente, anterior ao feriado de Sete de Setembro de um homossexual que chegou com 40% do seu corpo “cortado” por faca”.
As doenças provenientes de reações naturais são também muito freqüentes: as cardiopulmonares, respiratórias, cardiovasculares, pressão, hipertensão, diabetes, edemas agudos e infartos são as campeãs. No caso das pacientes em fase de gestação, a Unidade encaminha para o Hospital mais próximo. Na situação de mulheres em fase de trabalho de parto, necessitando de maiores cuidados, o posto disponibiliza de uma ambulância de plantão.
Apesar de ter recebido alguns aparelhos voltados para a nova tecnologia, em destaque para os auditivos, conforme informações publicadas no Diário Oficial, com o objetivo de atender os pedidos de licitação das secretarias municipais, a Unidade continua não dispondo de aparelhagens e materiais suficientes para atender a todos os pacientes, pois os mesmos, não se encontram em boas condições de uso.
Segundo informações da coordenadora, a questão é muito delicada e preocupante: “Os pedidos referentes à solicitação de novos aparelhos são feitos através de licitação e às vezes demora a chegar e isso acontece justamente no momento em que mais precisamos”, concluiu. A coordenadora salientou também não ter manutenção para conserto de aparelhagem: “É outro absurdo isso, pois se um aparelho quebrar a gente fica à mercê de um técnico que demora muito a vim realizar o conserto”.
Em relação às campanhas de vacinação, a coordenadora afirma que o posto não participa: “É uma falta muito grave, pois, a unidade teria condições de reservar uma área específica para esses eventos de saúde”, concluiu. Por outro lado, a enfermeira garante que nas campanhas contra o consumo de tabaco com faixas do tipo “Fumar faz mal à saúde” e as relacionadas à amamentação como “Amamentar é um dever de toda mãe e um direito de toda criança”, o posto avançou consideravelmente.
Em relação aos profissionais de saúde, a unidade possui dois médicos, sendo um clínico geral e o outro pediatra; além de três enfermeiras chefas e sete auxiliares de enfermagem e mesmo assim, não são suficientes para atender a população do bairro: “Eles dão prioridade aos hospitais, os postos ficam esquecidos”, relata indignada afirmando também achar um absurdo esses concursos públicos que só chamam duas ou três pessoas, provocando uma carência de profissionais que poderiam estar preenchendo essas vagas que vão aumentando na proporção que os funcionários antigos vão se aposentando.
Outros problemas abordados foram os relacionados aos procedimentos de atendimentos de consulta, onde a coordenadora diz não ter maiores dificuldades, pois existe um sistema de entrega de fichas para organizar a ordem de chegada mesmo se tratando de emergência, e, nas questões de higiene, em que a limpeza da unidade é composta por uma equipe terceirizada, afirmando a enfermeira que antes dessa equipe, os próprios funcionários faziam à limpeza.
A coordenação mostrou as dificuldades que a unidade apresenta, mas, ao mesmo tempo, informou que o setor de saúde municipal tem avançado em aspectos relevantes com a finalidade de valorizar o setor de saúde como um direito social à cidadania, estabelecendo os bens legais dos municípios como responsáveis pela elaboração de políticas públicas. “É preciso que os recursos tecnológicos, ações de vigilâncias epidemiológicas e sanitárias que são atualmente registrados pelo SUS como prioridade, sejam postos em prática”, concluiu a coordenadora.
(novembro de 2006)

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