Claudinho da Lapinha

por Vivian Gomes

Amanhece o dia, seja de sol ou de chuva, lá está um rapaz de pele clara, olhos e cabelos castanhos claros passeando pelas ruas da Lapinha e da Liberdade. Segurando uma penca de chaves na mão, o moço admira os carros que transitam pelo local e logo em seguida dispara os nomes, marcas, modelos e ano de cada veículo. Ele além de um grande admirador de carros é também um colecionador antigo de chaves de todos os tipos de automóveis. Luís Cláudio Batista, o famoso Claudinho da Lapinha, faz os mesmos percursos todos os dias. Sai da sua casa e vai dando uma volta pela vizinhança, falando com todos, contando as suas histórias, divertindo até os que passam pelo local. Pára e diz a todos qual o veículo da chave que está em sua mão, depois volta a disparar nomes, modelos e marcas dos que passam pela rua. O seu jeito espontâneo, carismático, divertido e atencioso de ser faz a alegria dos moradores e freqüentadores do bairro.

Claudinho nasceu e se criou em Salvador e morou dois anos em Poções. Filho de Osvaldo Batista, também muito conhecido no local por restaurar imagens sagradas há muitos anos, e da dona de casa Maria Eugênia Batista. O caçula de nove irmãos, cinco mulheres e quatro homens, sofre desde pequeno de um desvio no cérebro, o que provoca a perda de memória constante. Ora ele diz uma coisa, logo depois ele desfaz o que tinha dito. Ele parou de ter acompanhamento médico quando completou os seus 12 anos. “Os médicos disseram que ele não tinha problema nenhum conviver normalmente com outras pessoas. A sua doença não tem cura nem solução”, afirma seu Osvaldo. “Ele nunca deu dor de cabeça. É sempre assim… tranqüilo e querido por todos”, complementa.

Do lado do seu pai, ele o interrompe dizendo que já namorou muitas meninas do bairro, que sai todos os dias com alguma garota. O pai em sinal nos olhos o desmente, fazendo uma cara de que ele é muito sonhador. “Eu fico com muita pena dele, os irmãos mais velhos que poderiam pegá-lo para dar uma saída num final de semana não estão nem aí pra ele”, fala o pai em baixo tom para que ele não escute. “Ele paquera todas, mas ninguém sai com ele. Se alguma fizesse isso… só dar um passeio com ele algum dia. Ele é muito paquerador!”, continua. “Eu não sou paquerador, sou Claudinho namorador”, num jeito para não duvidar dele desmente o pai. Este volta a repetir o mesmo gesto com os olhos.

O seu pai informa que ele tem mais de 2.000 chaves guardadas em sua casa, “Desde os 12 anos ele coleciona. Nunca gostou de brincar com os garotos de sua idade, preferia aumentar a sua coleção”. Com uma infância humilde, ele também não tinha com o que brincar. Poupava as brincadeiras em grupo e preferia ganhar chaves a um brinquedo. Apesar do preconceito, ele leva uma vida normal e ainda tem um apoio muito grande dos seus pais. “É um filho adorável. Gosto de todos, mas ele, para mim, é o mais especial”, diz orgulhoso o pai.

Voltando a andar pela rua, encontra Lúcia Souza, dona de um estabelecimento no bairro. “Tia, você viu a minha nova chave? É do Gol”. Dona Lúcia ri e apresenta uma moça a ele. Ele encantado, pergunta se ela quer namorar com ele. A menina meio assustada não leva em consideração e brinca com ele. “Eu sei que eu gosto de você do fundo do meu coração e que você também gostou de mim”. Lúcia, ao ver a cena, conta um caso que aconteceu com ele a um tempo atrás. “Uma menina foi na casa dele, enquanto ele tomava banho, tirou a camisa e mostrou os seios a ele. Ele como nunca tinha visto aquilo, quebrou todo o banheiro e saiu correndo pela rua até a Soledade nú”.

Convidando a garota para dar um passeio com ele, ela segue com ele. Ele a puxa pela mão com uma forca e a leva em direção a sua casa para apresentar o seu pai e para mostrar onde mora. Ao parar em frente a sua casa com a moça que tanto gostou, ele pede o telefone e um cartão telefônico para fazer a ligação. “Volte de noite pra me pegar e a gente dar ‘uma saidinha’. Vou colocar uma calça, uma camisa de manga e te esperar pra dar uma passadinha no Pelourinho, depois no Farol da Barra, ir em Careca tomar uma ‘cervejinha’. Você vem me pegar que horas? Com que carro?” e por aí vai, comprovando a sua fama de colecionador e paquerador.
(Maio de 2006)

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